Expectativas - o mau do cinéfilo (Incluindo Critica de Um Olhar do Paraíso)

Expectativa, palavra perigosa e que infelizmente muitos cinéfilos cruzaram em 2009. Curiosamente poderia falar de um filme que felizmente ou não de ter superado ou decepcionado suas esperanças. Não. O foco do texto é mostrar e ao mesmo tempo deflagrar o perigo que temos quando crescemos esse sentimento dentro de nossas mentes e que pode nos levar a caminhos por muitas vezes sem volta e conseqüentemente desastroso.

Acredito que para muitos projetos de cinema que aparecem no ano surgem idéias e projetos que podem, dependendo do estilo e gosto refinado do espectador, aumentar ou negar esse projeto. A cada passo ou a cada foto que surge sobre esse projeto começa a surgir dentro de si essa idéia de como será desenvolvido o filme. Em muitas listas ou em passeios em blogs, sites de relacionamentos, fóruns de cinema vejo uma ligeira ojeriza em reclamação de dizer que o ano passado foi fraco e que muitos projetos que eram considerados para eles de ponta, não passa de uma dolorosa decepção, até mesmo criam momentos de autonegação de dizer que tal projeto foi péssimo por orgulho de ser fã dos realizadores.

Falando isso, qual é o segredo supremo de não ser surpreendido? Qual é o remédio contra esse sentimento chamado expectativa? Nesse texto mostro algumas técnicas que desenvolvi de acordo com o tempo que se passa mesclado com o tempo de escrita (afinal, será o inicio do ano 5 do Cine JP) que por muitas vezes ajudou a minha pessoa a sofrer menos e hoje, compartilho em nesse texto como uma homenagem as pessoas que por muitas vezes conseguem ser surpreendidos por algo que não esperavam e aqueles que como a lendária tragédia grega de Ícaro que queria tocar no sol e sua aventura culminou sua ruína e a decepção em conseqüência.

O primeiro ponto fundamental é com certeza o trabalho psicológico de não criação de idéias do que pode ser desenvolvido de acordo com os envolvidos do projeto. Devemos colocar na cabeça que por muitas vezes que mesmo com o elenco impecável ou um diretor impecável não é e nem será uma garantia provável de sucesso. Podemos colocar em pauta projetos interessantes como As Duas Faces da Lei, filme que voltou a reunir dois monstros do cinema que é Robert De Niro e Al Pacino em uma trama policial. Muitos estavam crentes da garantia que seria um encontro implacável porém esqueceram de observar outros fatores como produtora que demonstra claramente desconfiança e descrédito desse blogueiro (Millienium Films, quem conhece, foge), um diretor fraco e elenco de apoio abaixo da mèdia, resultado, um filme policial fraco e por muitas vezes frustrante. Outro caso recente é com certeza Nine. Apesar do elenco maravilhoso e fotos incríveis lançados na internet, não garantiu o sucesso tanto de publico quanto bilheteria, apesar de alguns dizerem que é bom, que tal canção é incrível, não consegue esconder que o filme tem problemas e é o tópico do segundo ponto tem muito haver com a idéia desse filme e de outro que vai ser citado agora.

O segundo ponto fundamental é a destruição da figura do fã e se tornar um admirador.
Parece que quando somos fã de alguma coisa tornamos por muitas vezes cegos e arrogantes e que por acreditar (talvez sim ou não) na presença do nosso ídolo em um filme é a garantia de sucesso. Acredito que muitos que viram Nine pensaram que a presença de suas atrizes favoritas era uma garantia de um ótimo filme. Um ledo e poderoso engano. E até eu mesmo, autor desse articulo tive que perceber isso. O exemplo foi com uma atriz que admiro muito que é Cate Blanchett, no qual não consigo perdoar a péssima atuação dela na seqüência de Elizabeth e pior ainda é saber que ela foi indicada para o Oscar com esse filme.

Parece que a partir do momento que nos tornamos admiradores, parece que é muito mais fácil assimilar os acertos e erros de uma pessoa do que um fã. Por muitas vezes por essa postura de negação de que o seu objeto de admiração errou consegue cegar uma postura critica e poderosa e com isso, criar criticas tendenciosas com ausência de pontos negativos e assim citando poucos pontos e transformar isso em um endeusamento duvidoso ao projeto.

O terceiro ponto é algo muito legal e ao mesmo tempo curioso, que é o resgate ao fator surpresa. Por tantas vezes por acompanhar um filme passo a passo, parece que já sabemos o que vai acontecer na cena seguinte. E quando isso torna-se vida, pode ter reações diferentes como alegria, decepção, êxtase e tristeza. E aqueles que fizeram questão de não saber nada do filme e ter o mais importante na cabeça que é apenas um cartaz, ou um trailer ou até mesmo uma simples cena de comercial? Acreditem, sai melhor do que o esperado.

Os melhores filmes do ano passado como UP, Avatar e Distrito 9 tiveram uma coisa em comum para a minha pessoa e de como eles me atingiram que foi no mínimo interessante.
Não acompanhei a fundo de como foram feitos os filmes, o que quer dizer, assim como muitos que só faltavam enfartar com uma cena. No meu caso, evitava ver qualquer tipo de material ou simplesmente ignorava. Para se terem uma idéia da “gravidade” para Up, só me interessei ao filme uma semana antes quando vi a famosa e por que não clássica cena do GPS, além do fato de saber depois que quem dirige o filme é Pete Doctor, o mesmo que dirigiu até então em minha opinião o melhor filme da Pixar, Monstros S.A.
Parece que essa negação voluntaria ao filme deu certo, o filme além de o melhor filme da Pixar, ele toca em temas complexos de uma maneira sutil assim como Monstros S.A. e principalmente coloca idéias que jamais poderia ter sito tocada em uma animação e do porte que é a produtora, e principalmente de retornar a verdadeira concepção de animação de que muitas vezes técnica não garante tudo que se imagina e que ao contrario de muitos fãs da Pixar, esse pode ser o verdadeiro filme da Pixar que pode ganhar o Oscar de uma maneira incontestável e inquestionável.

Esse ponto do texto é um dos mais essenciais desse articulo por que é esse o ponta pé para um sucesso de um filme. Parece que sempre temos a obrigação de ter e de saber de tudo que esquecemos que coisas simples como o fator surpresa pode ser delicioso. De como podemos saber de nada do filme e escrever sobre isso, de como ele conseguiu chegar a você sem precisar ver imagens a todo o momento ou trailers de uma maneira obsessiva e somos agraciados pelo todo e não por uma imagem já que podemos ver imagens, mas também podemos sentir muitas vezes o vazio disso tudo ou o desastre que é realmente isso.

Esses pontos parece que se reúnem em um filme só, Um Olhar do Paraíso de Peter Jackson. O esquecimento dos envolvidos, a desmistificação da figura de fã para admirador e principalmente a tentativa de ter surpresas foram os combustíveis importantes para assistir o filme. Peter Jackson teve uma difícil tarefa de fazer um filme tão inesquecível quanto o seu ultimo projeto que foi a trilogia do Senhor dos Aneís, mas a cobrança exagerada de muitos atrapalhou sua visão para a adaptação literária da obra de Alice Sebold.

Claro que existe problemas como as atuações mecânicas de Rachel Weisz e Mark Wahlberg (esse mesmo se esforçando em algumas cenas chaves da trama) e principalmente na deslocada Susan Sarandon que mesmo com uma divertida atuação, parece que o contexto da personagem para a trama se tornou um alivio cômico desnecessário. Porém somos compensados com as duas belíssimas atuações de Saoirse Roman e Stanley Tucci e esse ultimo ter conseguido acima de tudo a indicação de Melhor Ator Coadjuvante, mesmo com uma atuação bem abaixo daqueles que foram indicados a esse ano. E Jackson cria bons momentos criando momentos belíssimos visualmente sobre esse “paraíso”.

Um Olhar do Paraíso não é um filme perfeito já que muitos esperavam uma obra prima incontestável mas ruim ele não é. Por muitas vezes precisamos de projetos assim para lembrar que expectativas podem levar todos nós a bons e maus caminhos, sendo que no cinema, o que se viu foi maus caminhos e que por muitas vezes o próprio espectador sentiu, porém assumir que foi vitima do desejo é difícil. Um bom filme e nada mais.

Agora é tudo uma questão de sabedoria. Saber como enfrentar, saber como esperar e principalmente saber como se divertir. O principal desse texto é colocar e postar idéias sobre esse sentimento, porém quem sou eu em dizer que isso é uma verdade absoluta ou algo do tipo? Assim digo a todos, a expectativa de uma pessoa funciona como um mar, queremos saber o que se encontra no outro lado da costa porém só sabemos quando vamos cruzar ela até o final. Um grande abraço e até mais!

Cotação de Um Olhar do Paraíso - 70%

Comentários

  1. João, belo texto, mas acho que é natural, especialmente para nós, cinéfilos, criarmos expectativas em relação à certas obras. Nos envolvemos com diretores, histórias, personagens, atores, temos nossos favoritos e isso se reflete naquilo que pretendemos assistir.

    Mas, é fato que algumas das minhas experiências mais agradáveis na sala escura vieram quando eu vi filmes sobre os quais não esperava nada.

    E você sabe da minhas expectativas para ver "Um Olhar do Paraíso", mas estou tentando controlá-las porque justamente não quero me decepcionar.

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  2. Johnny, eu tenho esse grande problema de expectativa, uma parte dela é, de certa forma, inevitável. No caso de "Um Olhar do Paraíso" eu ficaria ansioso por qualquer filme com o nome de Peter Jackson.

    Mas confesso que irei trabalhar mais esse lado, evitar ler tanto sobre uma obra e conversar comigo mesmo pra diminuir esse mal terrível.

    Ótimo texto, muito bem escrito, parabéns e abraços.

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  3. Que belo texto em um momento que vem acalhar. Acho que qualquer um tem uma ligação com alguns artistas do cinema, algumas obras, mesmo sendo claramente duvidosas, as vezes despertam o interesse súbito que me fascina. Aconteceu com 'Nine', com 'Taking Woodstock', mesmo sendo filme não apreciados pela critica, eu adorei.

    Enfim, você levantou muito bem um tema que nós temos que controlá-lo muito bem. Ainda não assitir 'Um Olhar No Paraíso', nem estou com muitas expectativas, mas vejo que a decepção é um expoente entre a maioria.

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  4. Realmente a expectativa pode ser a maior inimiga para a avaliação de uma obra. O caso de "Um Olhar no Paraíso" já ilustra muito bem essa situação. Um filme regular, do qual esperava muito mais. Quando ocorre o contrário, é uma das melhores coisas para um cinéfilo.

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  5. Belo texto! E, com deve saber, sou uma pessoa que fica muito de ter expectativas, por razão até da premissa, realizadores e elenco. Infelizmente, podemos nos decepcionar ou nos surpreender. Acho que aprendi a lição agora, rsrsrs.

    Beijos! ;)

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  6. Respeito suas opiniões, mas não tem como simplesmente esquecer que o mesmo diretor da bomba LOVELY BONES fez no passado grande filmes. E o diretor sendo ele ou se fosse um iniciante, isso não iria mudar PRA MIM o fato do filme ser bem ruim, independente da expectativa que tenha com o filme. E não entendo porque alguns blogueiros estão focando esse negócio de expectativa ser mal e tal, isso pra mim não faz sentido, pois se um filme é ruim, não é pq quem viu estava com expectativas, pelo menos pra mim, eu quando vejo o filme, deixo as expectativas de lado e analiso a obra simplesmente, por isso com expectativa ou não, LOVELY continuaria sendo um filme bem ruim, IMO.

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  7. Expectativas, com elas só aprendemos a lidar no devido tempo. E o próprio tempo pode remendar os danos por elas causados...
    E tem razão, Blanchett exagerou em A ERA DE OURO.

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  8. Consigo lidar muito bem com expectativa. Nunca deixo isso afetar meu envolvimento com um filme. Portanto, estou ansioso por Um Olhar do Paraíso, especialmente agora com a sua crítica.

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  9. curti bastante o seu texto.

    a expectativa é algo complicado.


    quanto ao filme do PJ... foi uma experiência estranha. ele errou a mão, definitivamente.

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  10. Excelente texto, mesmo!
    Curiosamente e apesar de não ter gostado particularmente do filme, adorei a performance de Blanchett no Elizabeth II.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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