15 de julho de 2016

As Caça-Fantasmas

Paul Feig não tem noção do perigo que se meteu quando assumiu a direção de As Caça-Fantasmas (sim, chamo assim e não só de Caça-Fantasmas). O cinema americano hoje entra em uma crise profunda de falta de originalidade. Ou acreditamos que se seja isso. Claro que se observar bem, hoje a maioria dos filmes de sucessos no mercado americano são em sua maioria adaptações ou continuações de filmes que nem imaginaríamos que teria uma sequencia. Por outro lado, se transformou em uma regra que se tocas em algo sagrado do cinema, principalmente para o público "nerd", como é Os Caça Fantasmas está destinado ao fracasso.   

As Caça-Fantasmas toma como ponto de partida com a tentativa de Erin Gilbert (Kristen Wiig) ter uma carreira acadêmica renomada mas após um desejo desesperado de um senhor contra um poltergeist em uma mansão mal assombrada, ela volta a se unir com a sua amiga Abby Yates (Melissa McCarthy) e junto com Jillian Holtzman (Kate McKinnon) descobrem uma verdade assustadora: existem fantasmas na cidade de Nova York. Juntas formam a agencia de Caça Fantasmas e contará com a ajuda de Patty Tolan (Leslie Jones), uma funcionária do metro que teve um contato paranormal e o Kevin (Chris Hemsworth) que mesmo sendo uma porta de pessoa, detém um bom coração. 

A trama do novo filme faz algo interessante. É uma nova visão para a trama escrita por Dan Akroyd e Harold Ramis que apenas tem bases básicas: uma equipe descrente da sua capacidade diante a um mal inexplicável. Entretanto o diferencial não é somente ter um elenco feminino, mas aproveitar algo bem mais interessante e que realmente um bom olho vai deixar de passar por alto. Transformar a trama do filme como uma oportunidade perfeita para demonstrar que existe uma problemática pior que achar que as vacas sagradas não devem ser tocadas. 

É chato por um lado começar a citar a questão da negatividade que assolou o Youtube com qualquer vídeo que contenha o trailer do filme ou até mesmo defendendo o projeto. Quando saiu o primeiro trailer (que infelizmente é bastante mal editado e uma problemática que segue em quase todos os filmes de Paul Feig) foi praticamente ler : Minha infância foi arruinada. É bastante assustador como muitos já começam a deduzir isso somente pelo trailer.  

E claro que após isso, cada noticia que saia sobre o filme, era visto com ojeriza por uma boa parte da comunidade nerd, principalmente a masculina, e que muitos que se acham os maiores experts do movimento começaram a dizer claro o boicote e tudo. Claro que se está no direito, mas ao mesmo tempo, para aqueles que não tinham uma voz clara sobre o tema, ver tudo isso é como se fosse apoiar em uma voz para um disco arranhado que se transformou o próprio movimento hoje.  

Mas a virada de mesa aconteceu com as criticas positivas dentro do site Rotten Tomatoes (e possivelmente medianas para cima dentro do Metacritic, mas esse site propriamente dito é mais rebuscado em termos de criticas cinematográficas) e muitos começaram a não acreditar que estavam vendo ao ponto de invadir o IMDB e dar notas negativas para o filme só para desmerecer a possibilidade de reconhecer algo positivo dentro dele.  

Em um olhar bem mais clinico, se pode associar o roteiro de Paul Feig e Katie Dippold (Parks and Recreation e The Heat) demonstra o tempo inteiro o quanto é frágil e até repetitivo o discurso dos haters e transforma em um tipo de incentivo para as heroínas a fazem o seu estilo. Além claro de um estigma que já começou com outros projetos de Feig no qual é a nulidade da figura masculina como estupida, imatura e preconceituosa. Claro que o diretor ri da negatividade que aconteceu para o filme com grande piadas e uma reflexão pertinente.  

É interessante de como o diretor de Spy cria de uma maneira quase subliminar um tipo de pergunta para o espectador que no fundo começa a assombrar: a nostalgia está deixando o cinema cego? As Caça-Fantasmas molda essa ideia desde seu começo que realmente utiliza alguns elementos clássicos porém começa a criar sua própria forma e quando começa a criar, os outros personagens começam a desmerecer o tempo inteiro elas e mesmo com inovações de encher os olhos, só pelo fato delas seguirem o que elas acreditam, fazem que isso seja chacota. Até mesmo as motivações do vilão consegue ser essa associação com essa negatividade criada por muitos nerds durante esse tempo.  

Essa cegueira de muitos nerds vai custar caro durante o progresso da fita. Por que vão deixar de ver uma das melhores químicas entre comediantes depois de muito tempo. A afinidade que se cria entre Melissa, Kristen, Kate e Leslie é algo de outro mundo. Além disso, a revelação cômica de Chris Hemsworth nesse filme é tão de outro nível que consegue arrancar tantas risadas quanto suas parceiras. É tão especial quanto aconteceu com o elenco original do filme. Além disso, as piadas e a trama são afiadas. Não precisava ser nada de outro mundo, mas é cativante e prende do inicio até o final. Além claro de efeitos visuais impressionantes e um colorido maravilhoso quando chega no seu climax final. Não pode ter sido aquele climax, mas pela sua proposta é mais do que maravilhosa.  

As Caça-Fantasmas transformou o negativismo que recebeu durante esse tempo de produção e transformou em uma ferramenta narrativa e um grito de poder que não vai ser calado tão cedo. É uma comédia direta que detém efeitos visuais deslumbrantes e uma trama enérgica que procura o tempo inteiro ter sua própria forma e voz. Paul Feig para muitos vai ser considerado um infame por ter tocado em uma vaca sagrada e ter transformado algo que os fãs hardcores não queriam. Mas a mira do diretor foi outra e tão certeira quanto se imagina: Provou que para ter voz, é necessário deixar a nostalgia de lado e seguir o seu próprio rumo. 


12 de julho de 2016

Dois Caras Legais - The Nice Guys

Se admira quando encontras um tipo de diretor ou ator que consegue criar um estilo único dentro do seu cinema mas que por uma volta e outra, se encontra em um projeto duvidoso e começa os questionamentos. Mas nada melhor que o próximo projeto e a volta as raízes ou do por que seu talento é justificado desde do começo até o final do filme. O caso em questão é Shane Black e e sua obra prima, Dois Caras Legais (The Nice Guys) com Russell Crowe e Ryan Gosling nos papeis principais.

A trama se passa em 1977, no auge dos anos 70 e de alguns temas em questão como a pornografia e a crise do petróleo. Após a morte misteriosa de uma atriz pornô, dois investigadores particulares se cruzam para encontrar uma jovem chamada Amélia. Mas a cada pista encontrada, mais os dois estarão envolvidos em uma trama de corrupção e morte. A historia pode soar bastante simples, mas com o desenrolar da fita nos envolvemos mais nos personagens de Jackon Healy e Holland March, os caras legais do titulo.

Enquanto Jackson Healy (Russell Crowe) é pura força bruta, não deixa de ser um cara gentil e atencioso para o caso que está trabalhando. Já Holland March (Ryan Gosling) é atrapalhado, trambiqueiro e não nega um open bar. Apesar de sua personalidade bizarra, é um eximio observador e parte de sua personalidade brilhante se dá para sua filha Holly (Angouire Rice). Esses dois com personalidades tão diferentes, detém a química perfeita para um caso como esse.

Shane Black tem em seu currículo como roteirista filmes clássicos como a franquia de Maquina Mortífera, The Monster Squad e muito mais. Quando fez o noir Beijos E Tiros, todos ficaram maravilhados com seu trabalho como diretor e se pensaria que iria repetir o mesmo com Iron Man 3, mas que infelizmente foi um tremendo engano. Mesmo colocando algo adicional dentro da franquia de Iron Man como  uma cumplicidade mais notavel entre ele e Robert Downey Jr. e jogadas arriscadas de roteiro, se notava que era um filme dele, mas sim de uma outra pessoa. Até dando a entender o quanto a Marvel não consegue trabalhar bem com mãos habilidosas. Mas a sorte é que a fase II teve alguns rumos interessantes.

Já em Os Caras Legais, Black volta a trabalhar com aclamado produtor Joel Silver e aqui parece que ele encontra a verdadeira liberdade que não se viu no filme anterior. É energético, é extremadamente divertido, deixando que tanto o tom do drama, da ação e da comédia seja orgânico e que em cada parte, consegue rir até dizer chega e apreensivo nas cenas mais tensas. Além disso, isso não funcionaria se não fosse a maravilhosa química entre Russell Crowe e Ryan Gosling. Os dois brilham na tela ao ponto que mesmo se a trama levasse para lugar nenhum, qualquer desculpa para ver esses dois juntos já é válido. 

Pode passar por alto já que chega no calor dos blockbusters de inverno, mas Dois Caras Legais sem duvida é um dos melhores filmes desse ano. Engraçado, divertido e com um suspense de alto nivel, o filme de Shane Black é um deleite para os amantes dos filmes policiais do anos 70 que mesmo com a roupa brega, a essência policial se deixa experimentar com o humor inteligente com um suspense sagaz. E se muitos não acharem a obra prima do ano, ao menos de uma coisa é certa, faz lembrar de que Iron Man 3 foi apenas um erro de calculo.