28 de janeiro de 2016

O Programa - A Farsa de Lance Armstrong

Como começar uma biografia sobre uma pessoa que tinha tudo para ser um mito na sua frente entretanto os destinos que foram seguidos no caminho foram para transformar em uma das maiores fraudes da história do esporte? Stephen Fears, diretor de grandes biografias como Philomena e A Rainha, no seu novo projeto, The Program, apenas segue essa simplicidade: O protagonista e o antagonista se duelando em um jogo de totó. O jornalista David Walsh (Chris O'Dowd) tem uma conversa agradável com Lance Armstrong (Ben Foster) sobre a competição de Tour de France.  

The Program tem como foco central de como a ambição de Lance Armstrong de superar os atletas no Tour de France já que seu corpo não tinha a estrutura necessária. Após conhecer Michele Ferrari (Guillaume Canet) e ser introduzido por seu "programa", Lance começa a ter a esperança. Após a recuperação do câncer, ele começa a entrar a pleno nessa rotina. Mas na primeira vitória após o câncer, David começa a suspeitar que algo muito sombrio está por trás daquele sorriso vencedor. 

O único pecado lógico cometido pelo filme é pela falta de ousadia por parte do diretor. Claro que isso também tem em conta que é uma história ainda recente e que se pode dizer, fresca na cabeça de muitos. Entretanto, é um projeto mais do que valido para começar a questionar histórias infames do esporte. Já tivemos isso no ano passado com Foxcatcher na bela reflexão sobre a derrota no aspecto negativo (diferente de Moneyball que trata isso positivamente).  

Além disso, o questionamento mais assustador que deixa o filme é a questão da superação que passa Lance. No filme, o mesmo é retratado como um monstro ambicioso que sempre deseja vencer e manter esse status. Entretanto, nas cenas sutis que fala sobre o câncer, de como ele ajudou as pessoas a superar a doença são cenas difíceis de assistir por que o filme deixa essa pergunta no ar: se pode aceitar algo bom dele mesmo sabendo que para vencer, existiu a mentira? 

Em questões de atuações acontece o que já se esperava: uma tremenda atuação de Ben Foster. A criação não somente física do ator que em muitas vezes não se diferencia do verdadeiro Lance e o sorriso do mesmo é impressionante e assustador. Também vale a grande interpretação de Chris O'Dowd. O comediante de The IT Crowd e Bridesmaid consegue sair bem em um dos seus primeiros papeis dramáticos por que aqui, o que se realmente destaca do personagem é de como ele começa a ver com esperança um atleta e no final, encontra a pior das decepções. O único ponto negativo é de como é estranho ver um ator francês como Guillaume Canet falando com sotaque italiano é de doer os ouvidos.  

Stephen Fears faz um filme literalmente comum, com o gosto de que já se viu isso antes e tremendamente segue a velha formula. Entretanto, o diretor confia na história que conta e sem duvida se explora uma das histórias mais infames do esporte atual. E o mais interessante que essa questão do Lance pode abrir portas para explorar histórias infames tão maiores quanto se imagina. Alias, desde compras de jogos de tênis e o escândalo da FIFA ... agora é só escolher e filmar.


19 de janeiro de 2016

Lendas do Crime


Para ser honesto, é estranho saber que a maioria dos filmes de gangsteres sempre terão uma arquitetura pré-estabelecida e mesmo assim carregar um tom de fascínio. Não importa quem é o personagem em questão, o que o espectador vai sentir nitidamente é a ascensão, como fez para manter seu nome e o declínio inevitável. Brian Helgeland adapta a vida de dois gangsteres gêmeos que foram infames no final da década de 60 no filme Lendas do Crime. 

Tom Hardy (que também produz o filme) dá vida aos irmãos Reggie e Ron Kray. Enquanto Reggie é bem mais tranquilo, com seu temperamento buscando resolver o mais rápido possível. Ron é literalmente o músculo e ao mesmo tempo a loucura. Mesmo com esses polos tão opostos, os dois conseguem manter a harmonia. Mas aos olhos de Frances (Emily Browning, Sucker Punch), essa relação mutua dos dois levarão os gêmeos a ruína.

Apesar da estrutura básica de filme de gangster, o projeto faz diferencial em alguns pontos fundamentais. O mais interessante é de como joga a narração focando mais na ruína dos laços familiares que nos atos criminosos em si. Ao mesmo com isso, o filme se transforma em um tipo de estudo de laços familiares.  A direção de Brian tenta agradar em um certo ponto a gregos e troianos no sentido que a todo o tempo deve ser trabalhado a relação dos irmãos, mas sem esquecer da violência do tema. As vezes funciona, as vezes não.

Não se torna surpresa que o único e real motivo de ver esse filme seja por Tom Hardy. E advinha, mais uma vez o ator vale o ingresso. Mais ainda, quando está atuando em casa, onde se nota mais ainda a liberdade. De uma maneira surpreendente, Hardy consegue convencer com seus dois personagens radicalmente diferentes (enquanto um é literalmente um cavalheiro, o outro é força bruta com a voz de Bane) a imersão necessária para o projeto. Também no filme, acontece uma surpreendente interpretação de Emily Browning como Frances, a esposa de Reggie.

Legend pode ter caído na redundância do gênero de gangsteres mas ao mesmo tempo, nunca deixou de acreditar na história e principalmente na maravilhosa interpretação de Tom Hardy como os gêmeos Kray. Se torna até un pouco triste que o maior crime desse filme foi de nenhum momento sair da sua zona segura. Mas por outro lado, Hardy nos faz esquecer dessa zona e colocar novamente na cabeça do espectador por que ele é um dos atores mais versáteis da atualidade.




8 de janeiro de 2016

Cidades de Papel

A idealização de fazer a primeira critica do blog em 2016 poderia ser de um filme espetacular. Desta vez, o caminho será diferente. A melhor abordagem que se pode fazer é bem simples: sintetizar de uma maneira clara um filme que consegue criar um paralelo com o que foi 2015 mas não de uma maneira cinematográfica, como um espelho que foi 2015. É interessante por que o filme não é a melhor coisa que saiu do ano, mas também a mais desastrosa. Foi a adaptação de um livro juvenil que se acreditou que seguiria os passos da adaptação anterior do mesmo autor, mas foi para um outro caminho, caminho que só perceberia no final. 


Cidades de Papel, mais um livro de John Green ganhou uma adaptação no ano passado. O casal principal ficou por conta de Nat Wolff e Cara Delevigne. A premissa é bem interessante por que tem características dos filmes juvenis dos anos 80: Quentin (Nat Wolff) vivia uma infância comum até conhecer Margo (Cara Delevigne), uma extrovertida jovem que ama mistérios. Entretanto, o estilo de vida de Margo afastou a amizade de Quentin por ela. Os anos se passaram e mesmo distante, Quentin nunca deixou de ter esperanças para voltar a ter algo com ela. Após acompanhar a ela em uma vingança no ex-namorado, ele percebe que a mesma desaparece e ele fará de tudo para reencontrar a mesma.  

Soa interessante de como o filme engana ao público e talvez a si mesmo com a ideia que por ser do mesmo escritor de A Culpa É das Estrelas, se toma a concepção do amor levar para longe. Em realidade, Cidades de Papel é um perfeito exemplo de como o homem/individuo se prende na concepção da ilusão de que tudo é para sempre ou que tudo é tão falso ao seu redor que não se nota o quanto se perde em estar nessa ilusão.  
Até poderia começar explicar de imediato a concepção de cidade de papel: uma cidade fictícia dentro de um mapa para gerar pontos falsos para determinados princípios, desde criar marcas registradas ou enganar inimigos . No filme, essa concepção se transformou no mistério que rodeia Margo. E faz com que 
Quentin/espectador fique motivado a querer desvendar por que ela foi a essa cidade de papel.  

Durante a projeção do filme, se nota o fundamental: De como o filme começa a trabalhar essa ligação entre Quentin e os amigos querendo buscar a Margo, quando aparece a amiga dela arrependida pelo que aconteceu e todo o terceiro ato de resolver esse mistério. Mais ainda, de como esses momentos de quebra de sair de um ponto seguro e até mesmo sem graça que estava começando a tornar a sua vida. Possivelmente exista um tipo de desconexão entre o que se imaginaria que seria o livro e a realidade que chega ao fim. Por exemplo, é interessante como Quentin vai até o fim com a ideia que por causa do amor dele iria resolver o mistério e que vai estar ao lado da amada por muito tempo, mas em realidade começa um tipo de enfrentamento do maior mistério da vida de Quentin: o futuro e o tempo perdido. 

É até encorajador que o filme tenha esse tom. O motivo é bem simples: pode parecer estranho, mas é uma quebra de paradigmas dentro do cinema adolescente. Sempre teremos o final clássico de O Clube dos Cinco no qual todos os clichês são "quebrados" por algo que se passa em realidade. Em Cidades de Papel não é diferente. Ver personagens que ao final, não era a busca da garota perfeita ou da vida perfeita, mas sim de tudo que está ao seu redor ser real e ter medo de seguir em diante.   

Como filme em si, Cidades de Papel pode passar bem desapercebido, porém talvez seja a melhor reflexão do que foi 2015, um ano de papel no qual muitas coisas apenas ficaram ai, em um bloco de papel. Tiveram momentos que sem duvida conseguiu ser memoráveis. Talvez por ser em um papel, 2015 foi literalmente um rascunho para um ano promissor. Despertado da ilusão, talvez é hora de colocar novos projetos. Seguir adiante ... Dando um passo de cada vez.