A Serbian Film ... A Brazilian Shame ...

Quando estudei o capitulo peculiar da ditadura militar argentina, a professora para descontrair a classe contou algo bem interessante. No auge da repressão desmedida, o filme Laranja Mecânica de Stanley Kubrick foi censurado e proibido na época, os motivos são inúmeros. Mas o fato que chama a atenção é a história de muitos que viveram aquilo para ver o filme cruzaram o Rio de La Plata para assistir no Uruguai em praças publicas o filme de Kubrick. O genial foram os mesmos falarem “Eu assisti Laranja Mecânica no Uruguai”.

Pode parecer uma frase inocente, mas nunca vi combinar tanto com o que está passando no Brasil nos últimos dias. Principalmente no fato de que voltamos ao que não imaginaríamos após 26 anos veríamos em um estado livre, democrático que é o nosso país voltar a vivenciar um dos piores aparatos da ditadura militar, a censura. Pois bem, vocês, espectadores brasileiros estão privados do direito de assistir A Serbian Film nos cinemas por tempo indeterminado.

Os motivos da privação do cinéfilo ao ver esse filme são inúmeros, e muitos sempre emana uma questão moral extremamente forte, no qual dentro do mesmo filme tocam em temas que chocam seus pensamentos com o que para eles é ao borde do assustador. Acontecer em momentos incríveis da sociedade nacional como a vibração de inúmeros espectadores a morte de um personagem homossexual em uma novela onde 60 milhões de pessoas assistindo e gostando e principalmente o surgimento de um dia sem necessidade para criar ainda mais a intolerância legalizada. A censura ao filme surge como a cereja do bolo do neo-moralismo brasileiro.


Eu não me preocuparia com a questão da qualidade do filme, já que hoje vivemos (ou creio nisso) em uma sociedade que temos liberdade em validar opiniões, pensamentos e acima de tudo escolhas. Se muitos se incomodaram em ver os temas do filme, eles tem o direito em não ver e não recomendar aos seus amigos próximos e respeitar principalmente aqueles que viram o filme e não viram nada do que muitos alegam.

Se eu botar na minha cabeça o pensamento fundamental da censura ao filme, que foi o mal estar do público em determinadas situações, poderia muito bem argumentar a proibição de filmes medíocres brasileiros como Cilada.com ou qualquer enlatado brasileiro criado pela Rede Globo pela extrema má qualidade de seus filmes a todos nós, um publico decente. Ou até mesmo filmes que colocam um moralismo irreal por falta de proximidade a realidade de hoje.

Se o filme é bom ou não, pouco importa, o que importa é que nasci e fui criado em uma sociedade livre e sem censura. Seria mais coerente por parte daqueles que censuraram a responsabilidade de fiscalizar extremadamente cinemas de todo o país e pedir a identidade para impedir pessoas equivocadas a assistir e depois evitar problemas graves. Agora, aquelas pessoas que viram no cinema vão dizer com “orgulho”: Vi A Serbian Film no cinema! Após essa pergunta, apareceria... Você gostou? E responderiam ... Não, mas eu vi no cinema.

É lamentar e confirmar uma celebre frase do Away de Petrópolis, vivemos em uma sociedade criada a leite com pêra e ovomaltine. O filme pode ser sérvio, mas a vergonha, brasileira.

Comentários

  1. Essa sua última frase ("O filme pode ser sérvio, mas a vergonha, brasileira"), resume bem o teor desta situação ridícula...

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  2. "O filme pode ser sérvio, mas a vergonha, brasileira" 3

    É tão lamentável que nem tenho forças para comentar. Censura é sempre uma violência a nossa liberdade de escolha e expressão, e você foi perfeito ao questionar o valor de algumas "obras" brasileiras que nos são permitidas.

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  3. Censura é realmente algo ridículo, mas aqui amigo, a questão é muito mais além do que se imagina e a lei cumpriu o seu papel em querer proteger o menor.

    Não há legitimidade cinematográfica em A Serbian Film (assisti a fita). Sem demagogias, mas, infelizmente esse produto irá alcançar um público ainda maior justamente por conta dessa repercursão toda - de ambos os lados, primeiro: os avessos total ao negócio com a censura atrapalhada (que não foi bem o papel da justiça brasileira - a mídia apresentou de forma errada pra gente, visto que, o debate era a questão do menor violado no filme - que já acho demais tbm) e segundo, os que protegem o filme de uma meneira errada com o discurso da censura vergolhosa (até alguns que nem sequer assistiram). Pera aí, vc foi muito além em usar a fala da ditadura, até concordo até certo ponto em outros casos mais leves, mas acho que nem caberia em A Serbian Film e sua legítima violência apresentada. A justiça cumpriu seu papel em querer evitar a exploração da criança em cenas absurdas e sem alguma explicação coerente - até mesmo por parte do diretor que se manifestou pouco.

    Infelizmente muita gente vai assistí-lo. Eu o joguei fora e não recomendo mesmo a ninguém. Vai de cada um.

    Abs.
    Rodrigo

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  4. Amigo, como citei no texto, se torna opcional a pessoa assistir ou não e fazer como você disse ... vai de cada um ...

    E lembre-se que esse mesmíssimo país achou lindo uma criança fazendo uma bela chacina em Cidade de Deus e não aconteceu censura ...

    É só restringir o público nas filas de cinema cobrando seriedade nas bilheterias ... reflita com esse belo dato ... Quando fui assistir Jogos Mortais nos cinemas daqui, TODOS OS FUNCIONARIOS do cinema estavam cobrando a identidade de cada pessoa que iria assistir o filme e reclamava durissimo a quem era menor de idade ...

    Isso se torna mais simples, se achou o filme ruim, seria mais facil fazer uma campanha para que as pessoas não vejam no cinema ... ISSO É SIMPLES PORRA ...

    Abraços a todos que comentaram.

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  5. Nada é lindo em Cidade de Deus, Meirelles mostra a realidade dura com um filme gráfico. E a questão em Cidade era outra... pobreza, miséria e a corrupção. Os menores eram da própria comunidade, acho que ninguém ali foi explorado na fita(assista o meking of e o projeto que se sucedeu depois e nas carreiras de muitos depois do filme). E nada era gratuito em Cidade, exploratório e aviltante. Discordo de vc.
    E acho de extremo citar exemplos como Jogos Mortais ou mesmo Laranja Mecânica que não se assemelham a discussão da justiça (não contra totalmente o filme, de início, mas debatendo a seriedade de Serbian - que é pura exploração)

    E, sinceramente, não preciso fazer campanha de nada senão estarei eu censurando o negócio. Desculpa, mas vc assistiu ao filme?

    Abs.

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  6. É isso aí. Situação escatológica. Censurar sem ver. Ver sem ver. Pobreza administrativa do nosso Brasilzão. E acho que você vai ver o filme e não vai achar nada demais.

    Abs!

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  7. Isso mesmo, Rodrigo, vai de cada um, né. Assiste quem quer, não é mesmo? Então nada de censura.

    E ninguém precisa ver o filme pra dizer se ele deve ou não deve ser exibido. Isso é extra-filme. Controle sim, censura não.

    Sabe quem julgou o filme? Um partido político. Ora, isso não é problema político - não é tarefa para a igreja. E a palavra censura é apropriada sim, pois quem barrou o filme e difundiu muitos outros comentários pré-conceituados, também não viu.

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  8. A citação de Laranja Mecânica é um fato que não aconteceu no Brasil, qualquer pessoa que viveu a ditadura argentina pode te confirmar esse belo fato. A parte de Jogos Mortais foi uma preocupação da instituição do cinema local e ainda responsabilidade da cadeia de multiplex que estava passando o filme já sabendo que como o filme era de pura violência então,eles mesmos tiveram a conciencia em buscar fiscalizar quem assiste o filme ou não.

    E além disso Rodrigo, como foi citado com Pedro, questiono mais a questão da censura em si do que a qualidade do filme ... Por que digo a todos, já vi filmes piores ... e ninguem faz nada ... tudo é uma questão de liberdade, de validar para si ou não.

    Obrigado a todos pelo debate!

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  9. Belíssimo texto, João! Um absurdo o que fizeram com esse filme: censurando-o sem terem assistido a ele. Será que eles não sabem que censurando eles criam o efeito contrário? Fazem as pessoas ficar ainda MAIS interessadas em conferir a obra??

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  10. Caro,
    Antes de qualquer coisa, gostaria de me apresentar: meu nome é Thiago Valiati, cinéfilo como você, de Curitiba, 21 anos.
    Estava navegando pela internet e caí no blog de vcs. Adorei! Você escreve muito bem e domina o assunto. Parabéns!
    E ah, também tenho um blog de Cinema (em fase inicial), se puder dar uma olhada e, eventualmente gostar, adicionar à sua lista de blogs também (adicionei já!), iria me sentir honrado.

    Blog: http://this-is-cult-fiction.blogspot.com/

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